Pauta Global

Un blog sobre Economía Política Internacional

Lulismo e Kirchnerismo

nestor y lula

Cientes de que o uso dos “ismos” pode levar a simplificações e erros de interpretação das complexidades do mundo político, arriscaremos no uso do “Lulismo” e “Kirchnerismo” para referir-nos aos movimentos políticos liderados no Brasil pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e na Argentina, pelo presidente Néstor Kirchner e pela presidente Cristina Fernández de Kirchner.

Vemos nestas lideranças, duas linhas de pensamento que dialogam em algumas questões de política económica doméstica e em assuntos de politica externa, especialmente no tocante à relação bilateral e ao processo de integração regional. Contudo, as relações se caracterizam pela crescente assimetria e neste sentido o Brasil revela-se como paymaster  do processo de integração, já que tanto a UNASUL como o MERCOSUL  foram incentivados pela atuação brasileira.

Sendo assim “não seria precipitado afirmar que os avanços da integração, ainda que erráticos, têm produzido custos que têm sido pagos pelo Estado melhor posicionado: o Brasil” (Mallmann, 2013, p. 196).

Tal intuito integracionista está intimamente ligado ao entendimento das elites governantes brasileiras – ligadas ao Partido dos Trabalhadores (PT), sejam do próprio PT ou da coligação – sobre o papel do Brasil na região, sendo este seu lugar de atuação, que irá lhe permitir maior projeção no cenário internacional.

Esta projeção tem sido entendida pelo Lulismo e aceitada pelo Kirchnerismo, que reconhece no Brasil um parceiro fundamental para seu próprio crescimento.

As naturezas partidárias do Brasil e da Argentina são intrincadas e diferentes, mas coincidem no período 2003-2011 no tocante ao projeto nacional, onde a questão da Justiça Distributiva ocupou grande parte das preocupações governamentais, engajadas à política externa onde a integração regional também foi fundamental.

No caso do Brasil, “a competição partidária organiza-se mediante um sistema de cooperação e conflito entre quatro agremiações principais, quais sejam, PT, PMDB, PSDB, PFL” (Saraiva; Palermo, 2007, p.13).

Nesta dinâmica o Lulismo é definido por Singer (2009) como um fenômeno de representação que “espera um Estado o suficientemente forte para diminuir a desigualdade, mas sem ameaçar a ordem estabelecida” e ainda como o aparecimento de “eleitores de baixíssima renda” que se expressaram junto com a classe média na eleição de 2006, logo de ver os avanços na redistribuição durante o governo de 2002 – 2006. Já segundo Doniseti (2011), “o Lulismo é uma mistura de Trabalhismo Nacionalista, New Deal e Keynesianismo, que procura levar adiante um projeto de desenvolvimento”.

No caso da Argentina a luta politica é historicamente bipartidária e tem tido lugar entre o radicalismo e o justicialismo. Como diz Malamud (2002), a “Argentina foi governada entre 1946 e 2003 por 22 presidentes: 9 militares, 8 peronistas e 5 radicais”. Atualizando esses números, até 2015 houve 11 governos peronistas, 9 militares e 5 radicais. Este dado da uma pauta de como a vida política argentina está baseada no peronismo e no antiperonismo.

O Kirchnerismo pertence ao peronismo progressista, e deve sua conquista do poder, segundo Svampa (2007), ao manejo da crise de 2001[1], também condicionada na expectativa social da recuperação da ordem institucional. Contribuiu na eleição de Cristina Kirchner, a redistribuição de riquezas do governo de Néstor Kirchner, e a aproximação ideológica à governos da região considerados de centro-esquerda como o de Lula no Brasil e Hugo Chávez na Venezuela.

Se o Lulismo se expressa de maneira difusa na questão ideológica, o Kirchnerismo o faz da mesma maneira. Ambos se apresentaram como administrações de centro-esquerda, com retórica progressista, medidas econômicas ortodoxas que outorgaram algumas concessões sociais e se diferenciaram das linhas dos governos prévios, mas que não geraram uma clara identidade política (Katz, 2014).

As conquistas efetuadas pelo PT parecem mais empolgantes se comparadas com as feitas pelo Frente Para la Victoria (FPV) [2]. Neste sentido existe uma série de variáveis históricas, politicas e econômicas que explicam essas diferenças, entretanto observamos convergências interessantes: (1) ambos partidos se identificam com o “popular”, (2) têm em diferentes graus discursos pró-sul-americanos, (3) têm sido afetados em diferentes graus por escândalos de corrupção, (4) aplicaram programas de transferência social; e (5) adotaram discursos neodesenvolvimentistas, com a recuperação do que Katz (2014) chama de um “nacionalismo atenuado”[3].

Contudo, entre as diferencias na atuação na política externa se observa o caráter de confrontação da diplomacia argentina e o pragmatismo no caso brasileiro, questão que tem lhe servido de criticas ao Brasil pela sua atuação ambígua ou pouco precisa especialmente no tocante à questão sul-americana.

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[1] Nos primeiros meses de 2004, Argentina cresceu ao 8,8% anual. Em 2005, o crescimento foi de 9,3%  segundo a Enquete Permanente de Lares do Instituto Nacional de Estadísticas (Svampa, 2007, p. 43) Tradução nossa.

[2] Especialmente no referido ao ingresso de 40 milhões de pessoas à classe média. Mas neste ponto ter-se- á em conta as diferenças populacionais de cada país e que Argentina conquistou antes que o Brasil um melhor IDH e por tanto em proporção uma maior classe média.

[3] Katz usa o término para discordar do uso do neonacionalismo. O “nacionalismo atenuado” seria mais correto já que se refere a uma variante que se bem exalta a identidade nacional, também procura avidamente o comercio transnacional e a relação com as potencias de centro, sem exigir mudanças no sistema internacional.

Referencias bibliográficas

DONISETI, Marcos. O Lulismo e as razões da sua crescente influência na América Latina. Jornal GGN. Blog de Marcos Doniseti, 2001. Disponível < http://jornalggn.com.br/blog/marcos-doniseti/o-Lulismo-e-as-razoes-da-sua-crescente-influencia-na-america-latina>

KATZ, Claudio. ¿Qué es el neo-desarrollismo? I, II, e III Una visión crítica. Economía, Argentina y Brasil, Teoria y Política.   Biblioteca Universitaria UFSC. Santa Catarina, 2014. Disponível <https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/121796?show=full>, <https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/121798>, <https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/121799?show=full>.

MALAMUD, Andrés. El bipartidismo argentino: evidencias y razones de una persistencia (1983-2003). Tercer Congreso Europeo de Latinoamericanistas. Ámsterdam, 2002. Disponível em <http://dialnet.unirioja.es/servlet/articulo?codigo=2328908&gt;

MALLMANN, Maria Izabel. O Brasil como paymaster do projeto de integração sul-americano. In: RESENDE, Erica Simone Almeida; MALLMAN, Maria Izabel (Org.). MERCOSUL 21 anos: Maioridade ou imaturidade?  Curitiba: Appris, 2013, p.187-208.

SARAIVA, Miriam Gomes; PALERMO, Vicente. O Brasil no segundo mandato de Lula. IN América Latina: Situação e perspectivas. Revista do Instituto Português de Relações Internacionais. Universidade Nova de Lisboa. Lisboa. D Imprensa Internacional, março 2007.

SINGER, André. Raízes sociais e ideológicas do Lulismo. Revista Novos Estudos. Nº 85. Novembro, 2009. p. 83-102. Disponível < http://www.scielo.br/pdf/nec/n85/n85a04.pdf>

SVAMPA, Maristella. Las fronteras del Gobierno de Kirchner: entre la consolidación de lo viejo y las aspiraciones de lo nuevo. Cuadernos del Cendes. Año 24, Nº 65. Tercera Época, Mayo-Agosto 2007. p. 39-61 Disponível < http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=40306502>

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Un comentario el “Lulismo e Kirchnerismo

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Esta entrada fue publicada en mayo 24, 2015 por en Análisis y etiquetada con , , , , , .
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