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Un blog sobre Economía Política Internacional

Perspectivas sobre a “longa duração”: Braudel e Polanyi

Por conta da minha atual pesquisa de doutorado, estou cada vez mais alucinada pelo estudo das estruturas sociais, econômicas e políticas explicadas no contexto da longa duração, onde a questão temporal adota dimensões de mil anos ou mais, e contempla a interação de várias disciplinas na procura de uma visão holística ao objeto de estudo. Entre meus autores favoritos estão Arrighi, Wallerstein, Braudel e Polanyi. Hoje irei apontar algumas questões em relação aos últimos dois.

fernand-braudel-01Fernand Braudel (1902-1985) em seu texto “Civilização Material, Economia e Capitalismo” se propôs explicar a passagem da economia mundo da Holanda para a economia mundo da Inglaterra sob uma nova perspectiva histórica que contempla a problemática da reprodução material como um dos eixos centrais para o entendimento da nova realidade inglesa. Analisa, então, como o processo – sempre conflitivo – da criação de um mercado nacional, complexo e abrangente, é tudo menos espontâneo e requer a somatória de muitas forças para promover as condições para criar uma “coerência econômica adquirida” (Braudel, 1974).

O mercado nacional de Braudel é o espaço da reprodução material. E este se caracteriza por ser constituído de redes de malhas construídas a despeito de todas as travas e dificuldades que forças opositoras oferecem. Essa resistência poderia verificar-se em questões como: 1) as oposições das cidades-estados, que sendo parte do mercado nacional prefeririam não serem-no para não perder posições privilegiadas ou monopólicas, antes conquistas e agora compartilhadas com o estado-nação; 2) a oposição das províncias, que com o mesmo argumento da oposição das cidades observam a diminuição da esfera de poder da província; 3) a intervenção das entidades e/ou nações estrangeiras, que geralmente detêm objetivos contrários ao mercado nacional, no qual buscam vantagens que para serem satisfeitas precisam justamente da abertura desse mercado.

Braudel aponta que a construção das economias e a questão da reprodução material é uma constante da busca pelo próprio poder, que não se da por supostas forças naturais do mercado. E sim por uma lógica bastante racional da procura da riqueza e do poder. Neste sentido, o autor reflexiona sobre a guerra civil de sucessão dos Estados Unidos, entre o norte e o sul, e em como uma região (o norte) se impôs na questão econômica, política e civilizadora em relação à outra, e as consequências dessa imposição.

Destarte, Braudel elabora um esquema tripartido onde analisa o capitalismo, o aumento do capital nessa economia nacional já descrita e a vida material dos cidadãos.

Uma das maiores colaborações deste autor é, tal vez, a visão e o conceito da “longa duração”. Trata-se de um olhar histórico-descritivo que além de inovador e extenso, será criticado pela suposta ambiguidade da obra e do exercício teórico, questão que no meu ver deve ser desestimada por não ser o propósito de Braudel oferecer um marco teórico para sua analise e sim um trabalho histórico sobre a problemática que significa a apropriação da riqueza. Aqui o próprio Braudel provoca Marx e contrapõe o exemplo das ilhas de monocultivo para dizer que a lógica marxista das relações das forças de produção não sempre são fatores determinantes na produção capitalista e que sim há outros fatores que devem ser tidos em conta.

No conceito de longa duração de Braudel, o tempo se apresenta estrutural e existe a possibilidade de repensar os problemas da apropriação de recursos a través de uma reflexão interdisciplinar. Neste sentido, o poder está intimamente vinculado à vontade e interesses políticos.

polanyiA questão da reprodução material e a procura e conquista de poder, têm em Karl Polanyi (1886-1964) outras tonalidades. Em principio parece que as guerras e os conflitos são determinantes na conquista de poder. Mas, conflitos entendidos desde a perspectiva nacional e na luta de classes que a opressão do estado-nação e o mercado, ou ambos exercem sobre a sociedade, com o fim de se obter lucros extraordinários.

Esta lógica do capitalismo será questionada em toda a obra de Polanyi.

As evidencias apontam, segundo o autor, que o capitalismo não tem outro destino mais que se encaminhar à sua destruição. Neste sentido, aponta a falácia dos economistas clássicos (e neoclássicos) ao interpretar que o homem nasce e se revela desde seus primórdios como o “homem econômico” de Smith, e aponta com exemplos e estudos de casos, como na verdade a essência da humanidade não passa por interesses econômicos e monetários, e sim é atravessada por outras questões mais relacionadas aos prêmios sociais, como prestigio e reconhecimento, etc. Esta questão fica clara no texto “A subsistência do homem” (1977), onde Polanyi faz uma distinção que me parece importante apontar.

O autor se refere extensamente: 1) à economia formal; e 2) a economia substantiva. A primeira seria aquela economia racional defendida pelos clássicos e retomada pelos economistas neoclássicos (marginalistas), onde o homem procura o aumento da riqueza e do capital de maneira lógica e pragmática. A segunda consiste em “uma relação de intercâmbio no entorno físico e social a través do qual se obtêm meios para satisfazer necessidades materiais e simbólicas” (Polanyi, 1977).

A crítica mais dura de Polanyi aos autores neoclássicos tal vez esteja relacionada a essa logica histórica sobre a origem das transações comerciais e, por conseguinte, ao comportamento supostamente “natural” dos seres humanos que seriam propensos às atividades comerciais e a procura constante de riqueza e poder.

Todavia, a questão do poder não é um conceito que para mim seja evidente na obra do autor, mas que está presente de maneira tácita, na denuncia sobre como as sociedades capitalistas desvirtuam as práticas sociais e afastam os indivíduos um dos outros rompendo os laços de solidariedade comunitária presente nas sociedades tribais ou arcaicas por ele estudadas.

Já na obra anterior de “A grande transformação” (1944) aparece essa crítica e a preocupação sobre o futuro das sociedades modernas, que se revelam cada vez mais propensas à acumulação desvirtuada de capital, questão de gera conflitos interestatais cada vez mais graves e mais recorrentes; e onde a economia se afasta cada vez mais da produção real e se aproxima cada vez mais perigosamente de práticas especulativas que desestabilizam todo o sistema internacional.

Tanto Braudel como Polanyi fazem um exercício enorme em suas obras. A extensão dos casos de estudos é apenas uma parte dos trabalhos. As reflexões e análises deles desprendidos são de uma contribuição monumental para todas as ciências sociais. Fica a dica de leitura  😉

 

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Referências bibliográficas:

BRAUDEL, Fernand (1974). Civilização Material, Economia e Capitalismo. Séculos XV-XVIII. V. 1: As Estruturas do Cotidiano: O Possível e o Impossível. São Paulo: Martins Fontes, 2005

POLANYI, Karl (1944). A grande transformação: as origens de nossa época. Rio de Janeiro: Elsiever, 2012.

POLANYI, Karl (1977). A subsistência do homem e ensaios correlatos. Rio de Janeiro: Contraponto, 2012.

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Esta entrada fue publicada en octubre 21, 2016 por en Análisis, Historia, Personalidades y etiquetada con , , .
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