Pauta Global

Un blog sobre Economía Política Internacional

Porque a Europa?

Nuremberg_chronicles_Venice1Em quase todas – se não todas – as civilizações sedentárias existe em menor ou maior grau, uma notória centralidade do território. O território, uma vez superada a questão nómade, organiza a vida econômica, política e forma diferentes status sociais atrelados às questões anteriores. Se este ponto aparece em quase todas as civilizações do globo, na Europa se revela a partir do século X de maneira diferente, e que lhe dará a esse continente uma posição de prominência nas áreas mercantis, monetárias e financeira em relação aos outros.

A questão da “terra” aparece na Europa dos séculos X e XI como reveladora de uma incipiente organização tributária. Quem possuía a terra, além de liberdade e bem-estar, possuía a capacidade de extração de bens dessa propriedade. Não no sentido de geração de riqueza de moeda que temos hoje em dia, senão tributação de produtos que gerava essa terra. O camponês, por exemplo, era obrigado a trabalhar para o senhor feudal e entregar esses produtos, que este venderia nos mercados – obtendo assim seu lucro – em troca da permissão de morar nessas terras e da proteção que o senhor feudal e a organização do feudo lhe provia ao camponês. É importante notar este mecanismo tributário, porque sendo coercitivo e violento, irá se aplicar em toda Europa e cada vez de maneira mais sofisticada no decorrer dos séculos.

Diferentemente do que estamos acostumados a ler sobre o renascimento dos séculos XV e XVI, Metri (2014) chama a atenção para o fato de que o “verdadeiro renascimento econômico” começa na Europa já no século XI. Isto porque foi a partir desse período que teve lugar “o crescimento demográfico, a revolução agrícola, a revolução comercial, a expansão na produção artesanal, a expansão urbanas e das cidades, bem como a própria remonetização da economia” (Metri, 2014, p.103). Todas essas questões estavam intimamente ligadas à geografia europeia, não só as características geopolíticas dos estados que começavam a se desenvolver, mas ainda mais especificamente ao lugar que a terra tinha nestas sociedades.

Neste sentido, o empreendedorismo da Igreja Católica deixa várias lições. Em principio, devemos ter em conta que a Igreja oferecia proteção às diferentes unidades feudais contra os chamados “bárbaros”, personificados nas imagens dos mongóis, além de se posicionar como uma autoridade ética, moral e, sobretudo espiritual, que tinha – por assim dizer – acesso direto a Deus, e que por ser escolhida por Ele, detinha um enorme poder em uma sociedade sumamente supersticiosa e temerosa como era a medieval. A ameaça de excomunhão suscitava rápidos efeitos em lords, príncipes e reis, e o que dizer então dos populares.

O poder da Igreja Católica se constitui logo no inicio dos séculos X e XI, e foi através do dizimo que a instituição recolhe e organiza a tributação compulsiva de todos os espaços eclesiásticos formando uma verdadeira rede, que além de complexa, tem a capacidade de intercambiar moedas, letras de câmbio e terras. Estas operações deram à Igreja Católica uma importância chave no tabuleiro europeu medieval. A conformação do Estado Papal e as Cruzadas são prova disto.

1ra cruzada

Primeira Cruzada, Fonte: HOOPER; BENNETT, 1996.

Aqui aparece outro elemento que ordenaria a geopolítica europeia dos séculos XI ao XV e que teria dado lugar às altas finanças: a guerra. Não, que antes deste período a guerra não existisse, mas assim como a centralidade que adquire a terra, a guerra deste tempo ganha um lugar primordial nas atividades das unidades estatais e muda vertiginosamente a geografia do comercio, gerando entre outras coisas, o inicio da acumulação primitiva.

As chamadas “guerra de eliminação” são parte desse cenário onde a tributação começa a se manifestar monetária, criavam oportunidade de alimentar a autoridade central e de obter posições privilegiadas no tabuleiro europeu (Metri, 2014).

Sendo assim, os Estados tributam para arrecadar fundos para seus exércitos (lembrando que ainda não estão constituídos os exércitos nacionais, trata-se de soldados mercenários). Mas, a quem e como os Estados tributam? Pezzolo (2005) faz um bom resumo desta questão:

Starting from the eleventh century in central and northern Italy, cities began to grow as both political and economic centers. They freed themselves from imperial tutelage and some expanded their area of control well beyond the urban walls. During the thirteenth and fourteenth centuries major cities such as Florence, Genoa, Milan, and Venice were able to extend their territorial control; those of Venice and Genoa attained the importance of maritime empires. The formation of a territorial state came at enormous costs. How did urban governments raise the money needed to cover such expenses? Since increasing or raising new taxes required time and, above all, public acceptance, the easiest way was to borrow from the wealthiest citizens. (Pezzolo, 2005, p. 147)

Assim, a criação da dívida, de crédito, de investimento e de taxa de interesse permitiu às cidades-estados italianas por meio dos bancos e do aparecimento do sistema financeiro expandir seu poder econômico, financeiro e marítimo, exemplo disto último, é a Companhia das Índias Orientais, que inauguraram as bolsas de valores.

Em este cenário é de vital importância o papel das cidades, da crescente urbanização das cidades mais importantes, que puxavam a economia e o comercio entre diferentes regiões, o que contribuiu para a internacionalização da moeda veneziana e do crescente uso da diplomacia para a solução de conflitos, sem que isto significasse desestimar o uso da guerra, quando preciso.

Além disso, durante os séculos XI ao XV houve inúmeras inovações no continente europeu que foram fundamentais para a sua projeção no globo. Entre elas, podemos destacar as relacionadas com as armas, a organização militar: infantaria, cavalaria, as fortificações, o entendimento da guerra naval e anfíbia e o canhão (Hooper; Bennett, 1996).

Todos estes elementos configuram a geopolítica mercantil, monetária e financeira que permitiram a Europa transcender nos próximos séculos e levar adiante revoluções políticas, e industriais como não terão lugar em nenhum outro espaço do mundo. As conquistas da América e da África também são produto destes avanços e possibilitaram ao continente europeu dar um salto ainda maior, conhecido na historiografia da Economia Política Internacional como a “Grande Divergência”, mas esse é assunto para outro texto.

 

Bibliografia:

1ro mapa> Mapa de Veneza, 1493. Fonte: http://www.italianrenaissance.org/a-closer-look-renaissance-venice/

HOOPER, Nicholas; BENNETT, Matthews. The Cambridge illustrated Atlas: Warfare The Middle Age 768-1487. Cambridge: University of Cambridge, 1996.

METRI, Mauricio. Poder, riqueza e moeda na Europa Medieval: a preeminência naval, mercantil e monetária da Serenissima República de Veneza nos séculos XIII e XV. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2014.

PEZZOLO, Luciano. Bonds and Government Debt in Italian City States, 1250-1650 IN GOETZMANN, W. N. & ROUWENHORST, K. G. (Ed.) (2005), The Origins of Value, Oxford University Press, New York, 2005.

 

Anuncios

Responder

Introduce tus datos o haz clic en un icono para iniciar sesión:

Logo de WordPress.com

Estás comentando usando tu cuenta de WordPress.com. Cerrar sesión / Cambiar )

Imagen de Twitter

Estás comentando usando tu cuenta de Twitter. Cerrar sesión / Cambiar )

Foto de Facebook

Estás comentando usando tu cuenta de Facebook. Cerrar sesión / Cambiar )

Google+ photo

Estás comentando usando tu cuenta de Google+. Cerrar sesión / Cambiar )

Conectando a %s

Información

Esta entrada fue publicada en abril 8, 2017 por en Análisis, Historia y etiquetada con , , , , .
A %d blogueros les gusta esto: