Pauta Global

Un blog sobre Relaciones Internacionales

O lugar da Argentina no Sistema Internacional

Antes da Argentina ser Argentina:

A inserção da Argentina no Sistema Internacional a partir do século XX vincula-se intrinsecamente à apropriação que Buenos Aires fez dos recursos oriundos da Bacia do Rio da Prata, sejam estes de navegação, de tributação, comerciais e agropecuários, antes mesmo da Argentina ser Argentina.

As várias tentativas de formação do estado argentino moderno condensaram-se só a partir de 1880/90 durante a presidência de Julio Argentino Roca (1843-1914) quando se consolidou indiscutivelmente o poder de Buenos Aires sobre as províncias, se formou um exército nacional, se unificaram as moedas, se estabeleceram definitivamente os tratados de livre navegação, se viram os resultados das várias “campanhas do deserto” para anexar territórios patagônicos e no norte, acalmar os humores dos diferentes caudilhos. Nesse “estado de paz”, terminaram-se também os grandes conflitos internos entre unitários e federais, assim como o período de guerra regional, que a historiografia coincide em colocar entre 1807 (com as invasões inglesas) e 1870 (quando termina a Guerra do Paraguai), passado pela Guerra Cisplatina (1825-1828), Guerra Grande (1839-1851), Guerra do Prata (1851-1852), do Uruguai (1864-1865) e do Paraguai (1864-1870).

Antes disso, o que hoje conhecemos como Argentina era um punhado de províncias do norte que sobreviviam na periferia do Potosí, donde fluía a prata e em menor medida o ouro para Europa. Essas províncias comerciavam animais de carga, como jumentos, alguns tecidos e serviam de passo para o centro do Vice-reino do Peru (1542-1824), que se separa em 1776 dando formação ao Vice-reino do Rio da Prata (1776-1810).

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Fonte: http://www.pais-global.com.ar/mapas/colonizacion-de-america-del-sur-siglos-xvi-al-xviii/

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Fonte: https://pautaglobal.files.wordpress.com/2018/02/298b4-amc3a9ricadosul1799-bmp.jpg

A pampa era vista pelos colonizadores espanhóis como uma região difícil, pobre, de um “futuro medíocre e trabalhoso” (Romero, 1975), “A diferencia de México y Perú, el Rio de la Plata no sorprendió a los conquistadores com el espectáculo de su exuberância, sino con el de su poquedad” (Romero, 1975, p.27). Sendo assim, a ocupação do que viria a ser Argentina não representou dificuldades. Formaram-se aldeias, entre elas, Buenos Aires.

Contudo, só a partir da fundação portuguesa da Colônia de Sacramento (1640) Buenos Aires começa a ser tida em conta e ainda assim, precisou de duas fundações (1ª em 1536 e a 2ª em 1580). As vantagens das quais a aldeia dispunha se revelavam no manejo das rotas de transporte fluviais, na proximidade com Espanha e na facilidade do contrabando.

A diferença do Brasil, que se insere rapidamente no Sistema Internacional logo na conquista portuguesa como provedor de produtos tropicais, a Argentina tem uma inserção notavelmente tardia. O alto custo dos transportes fazia inviável a exportação em grande escala para Europa. Esta situação muda uma vez que o país se organiza e chegam a ele as novas tecnologias da Revolução Industrial.

 

A Argentina no século XX:

Podemos dizer que a inserção da Argentina de finais do século XIX e especialmente durante o século XX tem a sua base nos seguintes fatores: 1) a centralidade de Buenos Aires na economia política nacional, 2) os efeitos tecnológicos da mudança de matriz energética que permitiu o barateamento dos transportes e a construção de ferróvias, 3) a criação de instituições financeiras, como o Banco Central (1935) e com ele, a questão da evolução da dívida externa e o aceso ao investimento direto estrangeiro (IDE), e 4) a imigração europeia.

Neste sentido, na relação com as potências, destaca-se sem sombra de dúvida, a Inglaterra.

Uma das premissas mais difundidas na historiografia latino-americana é o poder de intervenção que tivera a Inglaterra em todos os países da América do Sul. A literatura dos primeiros cepalinos, como Raúl Prebisch e Celso Furtado, enfatizava na deterioração dos termos de intercambio que submetem à periferia ao subdesenvolvimento, enquanto o excedente de produção sul-americano ficaria nas potências industrializadas. Atualmente, embora seja grande o reconhecimento dos primeiros cepalinos, aparecem algumas críticas e revisões.

A mesma relativização vem aparecendo em relação a eventos relacionados com as guerras da independência e as guerras entre os recém formados estados. Por exemplo, Menezes (2013) assegura que a intervenção inglesa na Guerra do Paraguai não passa de uma explicação infundada, embora amplamente aceitada por cientistas políticos, historiadores, internacionalistas, etc. da região.

Não se fez o trabalho adequado de observação sobre os acontecimentos gerais da região do Prata, incluindo o que ocorria internamente no Paraguai. Dados como esses talvez sejam mais importantes para serem especulados do que aquele de que a Inglaterra provocou a Guerra do Paraguai. (MENEZES, 2013, p. 64).

Outros autores, como o historiador argentino Roberto Payró, também relativiza a intervenção britânica nos assuntos internos. Segundo ele, no caso da Argentina seria mais evidente (mas a observação vale para o Brasil também) a Inglaterra acedia aos nossos mercados e não estava muito interessada em conflitos, nem em guerra, nem em grandes intervenções, já que isto último custava recursos materiais.

En todo el período posterior a las fracasadas invasiones de 1806-1807 hasta los años 1840 Gran Bretaña no tuvo grandes motivos de insatisfacción en sus relaciones ni con las Provincias Unidas ni con la Confederación Argentina. Reconoció la independencia del país y consiguió sin mayor esfuerzo la firma de un tratado ventajoso en 1825. La comunidad británica residente allí prosperó mucho gracias al comercio de importación-exportación y la comercialización interna, el tráfico naviero, la venta de manufacturas, el abastecimiento de los ejércitos, las actividades ganaderas, los saladeros y su considerable papel en el mercado financiero local. Woodbine Parish y Ponsonby fueron muy escuchados por las autoridades y consiguieron éxitos considerables, como el tratado a que acabo de referirme, la aprobación de la muy objetada independencia del Uruguay contra el deseo nacionalista de conservar todo lo heredado de España y una no muy estruendosa aunque reiterada protesta cuando la flota británica se apoderó de las Malvinas después del vano intento de Estados Unidos de recuperar para sus barcos balleneros la libertad de acción en aguas de ese archipiélago. (PAYRÓ, 2007, p.398).

Esta relativização não quer dizer que não se reconheça que os capitais do Velho Continente precisavam encontrar novos mercados para seus produtos, assim como era vantajoso obter matérias primas, sejam tropicais (como no caso do Brasil) ou da pecuária (como era o caso da Argentina, Uruguai e o sul do Brasil).

Os IDE na região visavam o desenvolvimento de todas as etapas das quais precisava o comercio de exportação dessa produção primária. Por exemplo, segundo Rapoport (2010), a Argentina recebeu em 1885 o 50% dos capitais britânicos colocados no mundo, embora esse fluxo tenha parado em 1890. Já na primeira década do século XX, os Estados Unidos começaram a se interessar pelo mercado argentino, como também a Alemanha e outras potências europeias.

No seguinte mapa do TIMES (1995) podemos observar que os grandes investidores externos no inicio do século XX são a Inglaterra, com mais de 50% do total de investimentos, seguidos pelos Estados Unidos, a França e a Alemanha. O principal receptor foi mesmo a Argentina seguida pelo Brasil.

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Investimento estrangeiro na América Latina em 1913. Fonte: The Times, 1995, p. 222

A relação triangular que a Argentina (assim como o Brasil) leva adiante durante todo o século XX com a Inglaterra e os Estados Unidos determinou em grande medida o tipo de inserção agroexportadora, embora houvesse no decorrer desse século algumas medidas de substituição de importações com maior ou menor sucesso. Antes disso, a criação do Banco Central foi crucial para o engajamento do país no Sistema.

A fundação do Banco Central da República Argentina (BCRA) em 1935 (cujo principal propulsor foi justamente Raul Prebisch), de capital misto, 50% do estado, tinha a faculdade de intervenção no setor privado independentemente do governo, com o fim de poder regulamentar o valor da moeda, evitar as consequências das flutuações das exportações e dos IDE, em um contexto de crise internacional profunda. As políticas do BCRA pretendiam controlar o sistema financeiro nacional, atuar como agente financeiro e levar adiante medidas anticíclicas. Sua função era ser a única instituição habilitada para imprimir pesos argentinos, mantendo a reserva em ouro ou moeda estrangeira de pelos menos um 25% do lastro.

En las palabras de Prebisch, el primer objetivo que el Banco Central se había propuesto era ‘evitar que la expansión del crédito acentúe la intensidad de los movimientos ondulatorios y conduzca en el balance de pagos a un desequilibrio tanto más fuerte cuanto mayor haya sido en esa forma de sobrecrecimiento de las importaciones’ Ahora (1938) se agregaba un nuevo objetivo que iba más lejos: el BCRA ‘no se limita a evitar que estas fluctuaciones económicas se acentúen, sino que se propone, además, reducir su amplitud y disminuir la intensidad con que varía la masa del poder adquisitivo durante el proceso ciclíco, para atenuar las consecuencias de tales variaciones sobre el volumen de la actividad económica’ (Prebisch, 1991-1993)” apud (RAPOPORT, 2010, p.124).

As duas guerras mundiais afetaram de diferentes formas a Argentina. A primeira foi em geral negativa em relação às exportações, já que a Inglaterra passa a preferir as exportações estadunidenses às argentinas. As exportações de grãos se viram muito afetadas. Já durante a Segunda Guerra Mundial, embora os produtos agrícolas caíssem bastante, aumentou também muito a exportação de carne.

De acuerdo con las cifras del Anuario del Comercio Exterior de la República Argentina, hubo una sensible caída en el valor de las exportaciones de productos agrícolas argentinos hacia el Reino Unido, especialmente entre 1939 y 1942. En ese lapso cayeron de un valor de 205.306.455 pesos moneda nacional a uno de 36.017.527 pesos moneda nacional.  En cambio, en ese mismo lapso, el valor de las exportaciones ganaderas saltó de 341.974.388 pesos moneda nacional a 530.234.444 pesos moneda nacional, alcanzando en 1944 un valor de 772.280.137 pesos moneda nacional. El incremento de la exportación de carne, aunado a la disminución de las importaciones de origen británico, permitió mantener un saldo comercial favorable a la Argentina en su intercambio con el Reino Unido. (Anuarios del Comercio Exterior de la República Argentina, años 1939 a 1945, http://www.argentina-rree.com/10/10-013.htm)

A primeira e a segunda guerra mundial também aceleraram a migração, desejada e estimulada pelos diferentes governos desde “la Generación del 80[1]para povoar o enorme vácuo do território argentino.

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Deslocamento populacional mundial entre 1815-1914. Fonte: The Times, 1995, p. 205

A questão migratória era percebida como um problema, uma necessidade, uma urgência. Havia desde finais do século XIX uma luta épica entre a “civilização e a barbárie[2]” que podia ser entendida na suposta dicotomia entre a figura do homem do campo (el gaucho) e o homem da cidade (el porteño). Que tipo de país a Argentina pretendia ser? O analfabeto, preguiçoso e corrupto (questões atribuídas à barbárie, e, portanto, ao gaúcho) ou culto, trabalhador e moderno (valores atribuídos à cidade, e, portanto ao portenho).  Quem ganhou a batalha foi a cidade. E entre todas: Buenos Aires. “(…) la ciudad fue el instrumento de la impostación de la cultura hispánica y católica, y los campos fueron las áreas de los vencidos”. (Luna, 1978, p.52)

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Gaúcho argentino e portenho do século XX: dois modelos de país aparentemente irreconciliáveis.

Esta aparente dicotomia formava parte de um conjunto político, que teve grande impacto na formação do pensamento argentino e nas medidas que promoveram a imigração europeia durante o século XX, pois se percebia nela uma via de projeção no Sistema Internacional.

Os governos da União Cívica Radical (UCR) (1916-1930) e depois do peronismo (Partido Justicialista) (1946-1955, 1973-1975) procuraram – de diferentes maneiras – na ativação do “nacional”, seja na indústria ou na construção da identidade nacional, diversas formas de se inserir no Sistema. Os resultados têm sido os de um pêndulo, onde a constante é a crise.

 

 


[1] Período entre 1880-1916 no qual a elite portenha, proprietária da terra, comandou o país a través de um modelo oligárquico, com ideias liberais, europeístas, ansiosa por deixar atrás o passado de “barbárie” personificado na figura do gaúcho e do caudilho das províncias “do interior”. Tratava-se de uma geração culta que acreditava no progresso positivista, que apostaram na educação pública do cidadão, por meio da alfabetização e a universidade (que inicialmente foi pensada para essa elite, mas que a partir de 1916 foi democratizada). O modelo de inserção internacional da Generación del 80 era o de agroexportador, refletindo os interesses dos proprietários da terra e de formas primarias de produção, vinculados aos negócios com os ingleses.

[2] Bem definidas no texto de Domingo Faustino Sarmiento: “Civilización y Barbarie: Vida de Juan Facundo Quiroga”. Disponível em: http://bibliotecadigital.educ.ar/uploads/contents/DomingoF.Sarmiento-Facundo0.pdf

 


Bibliografía:

LUNA, Félix. Conversaciones con José Luis Romero: Sobre uma Argentina com Historia, Política y Democracia. Editorial de Belgrano. Colección Figuras Contemporáneas. Buenos Aires, 1978.

MENEZES, Alfredo da Mota. A guerra é nossa: a Inglaterra não provocou a Guerra do Paraguai. São Paulo: Contexto, 2013.

PAYRÓ, Roberto Pablo. Historia del Rio de la Plata. TOMO II. Peripecias de la organización nacional en los países del Río de la Plata y sus vecinos, 1810-1852. De la revolución de Mayo de 1810 a la caída de Rosas. Buenos Aires, 2007. Versão online disponível https://rppayro.files.wordpress.com/2008/10/historia-del-rio-de-la-plata-tomo-2.pdf

RAPOPORT, Mario. Las políticas económicas de la Argentina: uma breve historia. Buenos Aires: Grupo Editorial Planeta, 2010.

ROMERO, José Luis. Las ideas políticas de Argentina. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 1975.

THE TIMES (1995), Atlas da História do Mundo, Empresa Folha da Manhã S.A., São Paulo, 1995.

 

 

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Esta entrada fue publicada en febrero 19, 2018 por en Análisis, Historia y etiquetada con , , .
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